domingo, 11 de junho de 2017

CRÔNICAS AVULSAS: A PSIQUE DO BATMAN, ADAM WEST & EU



Dia desses na empresa que trabalho – uma menor aprendiz me disse: “Eu acho dá hora sua tatuagem do Batman no antebraço!” Confesso, que fiquei encabulado e respondi meio sem jeito: “Um dia te explico o porquê dela...” Os dias se passaram céleres e no frenesi das demandas, essa explicação minha nunca chegou para ela. Coisas que o mundo corporativo se encarrega de varrer para debaixo do tapete do esquecimento – devido suas altas solicitações cotidianas – que crescem sem fim...

Hoje, com a notícia de que o lendário ator Adam West, ator que interpretou o Batman na clássica série de TV americana, entre 1966 e 1968, morreu nesta sexta (09.06.2017), aos 88 anos, me senti inclinado a tecer algumas palavras sobre o Batman. Aliás, essa série ocupou muito o meu imaginário na infância e ficava encantando com as peripécias do Batman nela.

Aos desavisados, foi Bob Kane o criador do Batman, que fez sua estréia nos quadrinhos da Detective Comics em 1939. E para entendermos a psique da alma do Batman, precisamos falar do medo. Isso fica bem claro na película: Batman Begins, 2005 (do excelente diretor: Christopher Nolan). E a morte dos pais do Batman é parte capital de sua mitologia. Tudo teve seu início em novembro de 1939 na lendária HQ (de Kane) em que lemos a morte dos seus pais.

O que a criança Bruce Wayne aprende ali, com esse evento traumático? Que o mundo é um lugar cruel, e que nada – nem ninguém irá nos bater tão forte quanto a própria vida. Logo, não se trata de quem bate mais para vencermos na vida e sim de quem sabe apanhar e mesmo assim se põe de pé e não desiste. O personagem aprende que não estará seguro de novo, então o que ele faz? Justiça com as próprias mãos. Eventos traumáticos nos fazem questionar as nossas mais profundas crenças. E é assim que um trauma pode ser uma força poderosa que nos induz ao amadurecimento. Batman ao assumir o símbolo do morcego (ele morria de medo dos morcegos quando criança) conquistou para si mesmo –o medo real deles. Tornou-se outra pessoa...

Carl Jung no começo do século 20, vai se debruçar sobre o lado sombrio que todos nós carregamos. É a eterna dicotomia que nos divide: “bem x mal”. E o Batman personifica o lado sombrio. Em TODAS as culturas do mundo (exceto a China) o morcego é uma ameaça, um ser notívago, algo que não podemos ver claramente – mas, que pode nos morder. As pinturas medievais apresentam o próprio demônio com chifres e asas de morcego.

O que o Batman nos ensina então? É a atitude que iremos adotar perante a vida – o que realmente importa, quando ela vier sobre nós. Isso é uma escolha fundamental que todas precisam tomar; pois não importa o que venhamos a experimentar, não importa quem sejamos, não importa a classe, cor, gênero...

O mais importante é a nossa reação após a tragédia. Para muito além de suas aventuras eletrizantes, o Batman trás ao mundo algo maior. Suas lutas interiores nos oferecem uma visão da origem dos nossos próprios medos. As motivações por trás dos atos de maldade – e as maneiras que um ser humano normal – pode se tornar um herói. E sem autodisciplina que ele tem de sobra, não seremos ninguém. Como dizia Aristóteles: “Somos o que fazemos repetidamente, repetidas vezes. Portanto, a excelência não é um feito, mas um hábito.” Autodisciplina é como um músculo do nosso corpo – logo, quanto mais exercitarmos, mais fortes ficaremos.

Todos tentam se fortalecer com suas virtudes e minimizam suas fraquezas. Batman reflete o espectro total da ansiedade emocional: alegria e tristeza, que cada um de nós experimenta a vida toda. É um homem que encarou sua tragédia pessoal (perda dos pais) e fez escolhas para superá-la. E usou essa tragédia – para melhorar a si mesmo e o mundo.

A melhor coisa sobre o Batman é que ele não é um super-herói. Ele é HUMANO, aliás, demasiadamente humano. Ele nos mostra a grandeza da qual os humanos são capazes. Que todos nós podemos fazer a diferença sim em um mundo de dificuldades e mazelas mil. Podemos perseguir a justiça em um mundo injusto.

O Batman é acima de tudo – um personagem que nos dá esperança. Que todos nós precisamos. Ainda mais nos dias de hoje...


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ps.: Só contarei mesmo o motivo real então pelo qual tatuei o Batman no braço, para a menor aprendiz. Você terá de conviver com essa dúvida, se leu tudo até aqui. Existem coisas da psique humana, que só podemos dizer pessoalmente. Sorry.


RIP.: Adam West (1928-2017) descanse em paz e obrigado por tudo!

domingo, 30 de abril de 2017

CRÔNICAS AVULSAS: A DUVIDOSA PLURALIDADE DA REDE



Há pouco mais de uma década, quando o mundo começava a descobrir as redes sociais, imaginava-se que elas seriam um instrumento para ampliar o debate e fortalecer a democracia ao conectar os continentes. Hoje, praticamente um quarto da população mundial está presente no Facebook, a maior rede social do planeta, com 1,8 bilhão de usuários ativos, mas o impacto da interação virtual gera preocupação crescente.

Gosto muito da escritora Hannah Arendt, e trago uma citação da mesma do seu livro: “A condição Humana”, a saber:

“É óbvio que isto requer reflexão; e a irreflexão – a imprudência temerária ou a irremediável confusão ou a repetição complacente de verdades que se tornaram triviais e vazias – parece ser uma das principais características do nosso tempo. O que proponho, portanto, é muito simples: trata-se de apenas refletir sobre o que estamos fazendo.”

Refletir sobre o que estamos fazendo? Num tempo em que as pessoas mal lêem um livro? Cujo senso crítico delas é baseado no que elas recebem uns dos outros via mensagens e vídeos no WhatsApp? Goethe dizia que: “Aquele que não da conta do que lhe antecedeu em 3 séculos – vive na era presente em meio as trevas.”

Um dos aspectos preocupantes dos hábitos digitais é o que vem sendo chamado de “cultura de ódio”, postagens ofensivas e gratuitas de pessoas aparentemente cordiais na vida offline. Os alvos são muitos, mas surpreendentemente não definidos por experiências pessoais do usuário, mas por seu posicionamento político-social. Um exemplo é o do atirador de Campinas (SP) que matou 12 pessoas da família na noite de Revéillon e deixou uma carta em que reproduz esse discurso de ódio retirado da internet.

Outro efeito negativo do comportamento online é a denominada “pós-verdade”, um conceito recente que foi eleito como a palavra do ano de 2016 pelo dicionário da Universidade de Oxford, na Inglaterra. A palavra denota “circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal”. São situações em que a pessoa não se importa em reproduzir uma mentira desde que encontre uma justificativa para a sua própria opinião.

Essas notícias falsas podem ter conseqüências perigosas no mundo real. Foi o caso da pizzagate, um boato que se espalhou por Facebook, Twitter e Instagram durante a campanha presidencial americana e dizia que a pizzaria Comet Ping Pong, em Washington – cujo proprietário teria ligações com um assessor de Hillary -, estaria envolvida em tráfico de crianças para uma rede internacional de pedofilia. No início de dezembro, Edgar Welch, um pacato cidadão, resolveu fazer justiça com as próprias mãos. Foi até a pizzaria portando um rifle de uso militar e abriu fogo instintivamente.

Como as redes sociais não têm filtros, normalmente são terreno fértil para a difusão de informação falsa. A capacidade de propagação de uma notícia mentirosa é 50% superior à de notícias verdadeiras.

Os antropólogos diziam que lá no passado você tinha de ser alguma coisa; depois você precisava ter; hoje, em função desse mecanismo biológico, você não precisa ser, nem ter, você precisa APARENTAR. Por isso, as pessoas fazem o possível e o impossível para passar idéias de coisas maravilhosas. É uma maneira que o cérebro encontra de tentar, no meio dessa multidão, achar ou ganhar o mínimo de atenção. Aí as pessoas perdem o contato com elas mesmas. Elas estão voltadas para fora. Então, quanto mais eu receber curtidas nas redes sociais, mais valor social passo a ter. É difícil você pegar pessoas que dizem que não entram nas redes sociais, ‘isso é suicídio’. Saber quem você é, para onde vai, está em baixa. Lamentável...

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domingo, 2 de abril de 2017

CRÔNICAS AVULSAS: NÃO SOU PARA TODOS



Não sou rico. Nunca serei. Minha vantagem (como pobre) é saber esperar. Um esperar sem dor. Porque é espera sem esperança – ainda mais quando se vive no Brasil. Afora isso – tenho perdido minhas esperanças na palavra amizade. Aliás, me machuca no fundo da alma, quando os que se dizem meus amigos tentam tirar qualquer tipo de vantagem sobre mim. Embora, os mais chegados já saibam – creio que “estes” nessas horas – os ditos “brothers” se esqueçam completamente de que eu nasci em Socorro – interior de São Paulo, contudo, me criei nas ruas do Jardim Ângela, zona de sul de São Paulo, portanto, morando aqui não tem como você ser um bobão. Conheço gente malandra de longe – as ruas me ensinaram. Embora tentem disfarçar, o seu cheiro de desfaçatez uma hora exala. Cobra não sabe voar – jamais será colibri.

Toda minha formação veio de mãe. Ela lia pra mim – quando eu ainda estava em seu ventre (assim, quando pisei o pé na escola, já sabia ler e escrever) e foi o esteio da minha vida. Sábia como era, adorava os aforismos que criava assim do nada, numa mera conversa ao acaso e despretensiosa, transmitia essa espirituosidade a todos, e em mim pela proximidade – grudavam em minha mente como super bonder. Eis um deles e que vem bem a propósito:

“É assim a ganância: uns possuem, outros são possuídos pelo dinheiro!”

E quanta gente se perde nisso? Um mar de pessoas...

Como ela também gostava de dizer: “Amigo você nunca perde! Apenas, descobre que nunca teve!” Quanta verdade, contida em simples palavras. Eis a magia de mãe.

Gente pilantra, maldosa, espertalhona e que gosta de tirar vantagem dos outros, quando eles estão desguarnecidos, andam rente ao chão, receosos não de pisar, mas de serem pisados. Mal sabem eles que seus espinhos maldosos se cravam não no pé, mas em seus próprios corações infectados de dolo.

Com o passar dos anos desenvolvi uma técnica – que não me garbo dela. Vou matando esse tipo de gente dentro do meu coração. E me afasto por completo. A ausência diz muita coisa. Meu silêncio é aterrador.

Tive uma infância maravilhosa. Era feliz e sabia. Mas, num dado dia que me lembro como se fosse hoje, me recordo que pedi para um desses ditos “amigos” que a vida me reservaria, para me emprestar sua bicicleta – para que eu pudesse dar uma volta. E ele me negou isso veementemente, me humilhou e ainda tentou me escorraçar, óbvio que eu fui embora, mas antes, lhe dei uma bela sova. E chegando em casa, após relatar tudo, mãe que tinha uma memória dos deuses, puxou um livro da estante e disse para mim:

- Marcelo, lhe apresento Caio Fernando de Abreu.

- Caio Fernando de Abreu, eis o pequeno Marcelo. E leu para mim:

“NÃO SOU PARA TODOS. Gosto muito do meu mundinho. Ele é cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas. Às vezes tem um céu azul, outras tempestade. Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos. Mas não cabe muita gente. Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso. São necessárias”.

Hoje ao refletir sobre uma amizade que soçobrou, essa lembrança veio bem a calhar. Obrigado mãe...


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sábado, 18 de fevereiro de 2017

CRÔNICAS AVULSAS: DEU FOTO



O imortal Vinicius de Morais já dizia: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. E no dia 13 de fevereiro desse mês e ano corrente, eu fui presenteado por um belo encontro. Ele aconteceu na Casa Elefante e foi o meu primeiro dia no Grupo de Estudos – Construindo sua Poética, grupo esse de fotógrafos. E tudo graças ao meu amigo Ricardo Biserra, que generosamente me estendeu esse convite, já que não passo de um diletante em termos de fotografia.

Ao longo da história tivemos encontros celebres e eu poderia citar vários, mas me aterei apenas em um – que foi entre Freud e Jung. Antes do encontro que foi em 1907, eles já tinham trocados 359 cartas e ambos já tinham conhecimento da obra um do outro.
E finalmente em 1907 Jung foi da Suíça até a Áustria a convite de Freud e eles tiveram o primeiro contato presencial, que resultou numa conversa de 13 horas ininterruptas.

O meu primeiro dia de curso não foi diferente, pois se deixássemos – creio que iríamos varar a noite adentro falando de fotografias, estilos, olhares, composições e fotógrafos que temos por referência e que amamos. É como se no ambiente pairasse um ar inebriante de magia, satisfação, amizade, respeito e principalmente de muito amor pela arte da fotografia.

Lembro que fazia um calor absurdo (mesmo sendo de noite) e pela manhã nesse mesmo dia, São Paulo fez 36º graus. E de noite não poderia ser diferente, contudo, ninguém reclamou ou arredou o pé e nos mantivermos firmes até o fim.

Já no caminho de volta para casa, fui pensando em tudo que ouvi e vi ali, nos conselhos e dicas – que todos deram. E a arte tem esse poder mesmo, ou seja, de reunir em volta de si os seus amantes. E uma coisa que sempre passou despercebida por mim é que podemos construir a nossa linguagem poética fotográfica numa seqüência de fotos que estão atreladas ao tema. Acredito que pelo uso constante do meu Instagram, que sempre faço fotos de momentos soltos e sem vínculo aparente entre si, nunca tenha reparado nisso.

Creio que esse insight falado claramente pela Carol Lopes foi iluminador para mim. E foi a mesma sensação que Gabriel García Márquez teve ao terminar de ler o livro: “Metamorfose” de Franz Kafka, quando ele disse para si mesmo: “Porra! Então se pode escrever assim?”. E depois disso deu início a sua obra literária, alcançando seu ponto máximo com “Cem Anos de Solidão”. E esse também foi o mesmo sentimento que se apoderou de mim – ali na hora do curso.

Creio que a verdadeira arte não embala os adormecidos. Desperta-os. E nós – os artistas, somos a última linha da sociedade, quando desistimos é porque não resta mais nada. Fico feliz de estar entre amigos artistas que não desistiram, ainda que no Brasil infelizmente a arte e a valorização dela seja tão precária.

Desde que comecei a fotografar, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que um fotógrafo pode dizer através de sua obra, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é trazer luz sobre a realidade do nosso mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar em punho e em riste nossas câmeras, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos câmeras, usemos nossos celulares ou, em último caso, um daguerreótipo – como um sinal de que não desertemos do nosso posto.


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PS. A foto que compõe essa crônica foi feita por mim, e caso queira conhecer outras, acesse meu Instagram: @marcelo.caldas7


sábado, 21 de janeiro de 2017

CRÔNICAS AVULSAS: MEU AMOR E WOODY ALLEN



Se for verdade que os opostos se atraem, então os dispostos se eternizam! Lembro que o nosso primeiro beijo foi na Cinemateca de São Paulo. Isso por si só já era um prenúncio sobre a importância que o cinema teria em nossa relação e em nossas vidas. Eu realmente acredito que o que da liga para um casal, são mais as coisas em comum do que as díspares. E nesse sentido, ambos temos um amor declarado pelo cinema.

A Alexandra ainda não conhecia o Woody Allen, e a primeira vez em que eu o apresentei para ela – foi com o filme: “Meia Noite Em Paris”. Foi amor imediato. Ela inclusive (já até perdi as contas) já reviu esse filme várias vezes – e eu também. Com o Woody Allen não temos o meio termo. Ou você o ama ou odeia – simples assim. Ela optou por amá-lo – sábia decisão.

As palavras são do Gilberto Gil, quando ele completou 70 anos: “Me dou cada vez menos importância!”. E isso se aplica precisamente na obra do Woody Allen, pois acredito que ele não tenha um ego nas alturas (muito embora já tenha ganhado inúmeros prêmios e sua obra e genialidade sejam reconhecidos mundialmente). Ou seja, ele pouco se importa com os clichês estabelecidos pelo cinema. Sua obra vai na contramão de tudo. E por isso mesmo o torna genial, único e autêntico. Uma das múltiplas leituras que ele nos proporciona para entendermos a nós mesmos é que toda vez que nos acreditamos “especiais” demais – nos tornamos na verdade é patéticos.

Quando assistimos aos seus filmes, vemos sua transparência e inspiração. Trata-se de um cineasta que passou anos tentando entender e diagnosticar as neuroses humanas – as suas, inclusive. Quando um cineasta consegue alterar entre o humor e a melancolia – ele alcança o sucesso, mas quando as mesmas coisas são alegres e melancólicas em simultâneo, é simplesmente sublime. Woody Allen é sublime nesse aspecto.

Em casa temos um verdadeiro arsenal sobre o Woody Allen. DVDs, livros de críticos comentando sua obra e claro: biografias! O Netflix também potencializa ainda mais nosso conhecimento sobre ele, contudo, quem mais o vê é a Alexandra, eu acabei ficando para trás nessa maratona.

Enquanto deitava essas palavras nessa crônica, me veio à mente uma frase do Alec Baldwin no filme: “Para Roma com Amor”. Ele em dado momento ele diz: “Maturidade talvez não seja sinônimo de sabedoria e sim de exaustão. Quanto mais o tempo passa, mais se torna necessário simplificar a vida”. Por filmar em diferentes cidades do planeta (enchendo nossos olhos com suas belezas ímpares: Londres, Barcelona, Nova Iorque, Roma, Paris...) extraindo delas o que há de melhor, mas sem nunca deixar de unificar as fraquezas e grandezas humanas, que são iguais em qualquer lugar e por nos ajudar a simplificar nossa vida – meu sincero: muito obrigado!

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

CRÔNICAS AVULSAS: O MAL DO SÉCULO



É a palavra clichê mais usada nos processos seletivos, quando o recrutador pergunta: “Qual é o seu ponto fraco?” A resposta é dada de imediato, quase sem pestanejo: “Ansiedade”. Creio que todos em maior ou menor grau sejamos ansiosos. Acredito que muito disso se deva a nossa própria era, pois vivemos e queremos tudo para ontem. O conceito de fastfood nos doutrinou assim. Passar alguns minutos numa fila então? Imperdoável e impensável. E a sociedade como um todo evoluiu para garantir agilidade em tudo ao nosso redor e para que não percamos tempo com quase nada.

Uma coisa que aprendi a duras penas (pois paguei uma conta altíssima) foi ter que ficar esperando pelo Sandro da Eletropaulo. Ele é o responsável por vir medir a luz na minha rua e passa aqui em minha casa uma vez por mês, religiosamente no dia discriminado na conta. E como ele veio aqui algumas vezes e eu não estava ele tirou a conta pela média, o que me deu uma tremenda dor de cabeça, pois paguei um valor que já é absurdo de caro, só que agora ao quadrado.

Nos dias em que ele vem, fico como aquele personagem do Gabriel García Márquez do livro: “Ninguém escreve ao coronel”. Esperando, esperando e esperando... A minha sorte é que o Sandro sempre passa, só não tem horário certo para isso, ao passo que o Coronel do Gabo, sempre houve em toda sexta-feira quando ele vai ao caís, o seguinte do carteiro: “Ninguém escreve ao coronel”.

Não seria o mais apropriado a dar conselhos aos ansiosos; pois também tenho as minhas ansiedades. Mas algo que aprendi no decorrer dos anos é que a ansiedade nos consome até o dia em que decidimos resistir e deixamos o tempo fluir. Com isso não quero dizer que devamos viver desleixados com nossas vidas, simplesmente quero dizer que existem coisas que estão além das nossas capacidades de poder resolver, e de que nada adiantaria ficarmos ansiosos.

Até Cristo que já em sua época antevia os nossos infortúnios na arte de viver a vida, nos aconselhou sobre isso, quando disse nos Evangelhos: “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?”

Ansiedade alguma pode antecipar o que irá ocorrer no seu devido tempo. E perdermos nosso tempo nos preocupando com isso, é pura insensatez. Qualquer ansiedade nunca esvaziará o sofrimento do amanhã, mas apenas esvazia a força do hoje.


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domingo, 15 de janeiro de 2017

CRÔNICAS AVULSAS: AOS SEMIDEUSES




A vaidade é o calcanhar de Aquiles dos homens e mulheres, desde tempos imemoriais da nossa criação. Hoje em dia então com o advento das redes sociais isso ganhou uma proporção ainda maior. Basta darmos uma rápida olhada nas redes sociais, pois nela todos estão esbeltos e em suas melhores fotos, nos melhores lugares, nos melhores restaurantes, nas melhores baladas, com as melhores bebidas – e tudo gira em torno de se mostrar e ostentar. Não tenho nada contra as redes sociais (já até aviso a priori) contudo, essa necessidade exaustiva de se mostrar que está sempre numa boa aos outros é de uma aporrinhação sem igual.  

O mundo virtual existe ao redor de nós, como um monstro ou um anjo, dependendo do lado pelo qual o abordamos. Todos nós fomos condenados ao excesso de comunicação, a oferta é maior do que a procura. O mundo virtual é um salto sem rede no espaço. E eu fico boquiaberto com o sujeito que diz: “Tenho mais de 1.000 amigos nas redes sociais!” Aí eu penso, será que eles caberiam num abraço sincero? Será que são pessoas que realmente se importam com você? Será que estarão ao seu lado nos momentos dos dias maus? Vã ilusão isso.

Acredito que a poesia é fundamental na vida de todos nós. É ela quem sempre nos salva do ridículo e dá à vida uma transcendência cada vez mais necessária. E aos que acham semideuses, recomendo que leiam esse poema do Fernando Pessoa, que se chama: Poema em Linha Reta. Quem sabe ainda exista cura...


“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!


Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”


Longa vida aos que conseguem se desapegar do ego.

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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

CRÔNICAS AVULSAS: FELICIDADE CADÊ VOCÊ SUA LINDA?



É um tema espinhoso, complexo e com infinitas respostas. Aliás, cada um deve ter a sua própria receita para o que é a felicidade. E não quero aqui em hipótese alguma ser à resposta final sobre o tema. Aliás, se pararmos para pensar, quase todos os nossos desgostos que temos hoje surgiram quando a vida nos fez uma pergunta e não soubemos dar a resposta. Essa é a verdadeira corrida da nossa existência: saber as respostas antes que a vida faça as perguntas. Devemos aprender enquanto há luz, para podermos fazer nossas escolhas quando estiver escuro.

Após o café da tarde na casa da minha irmã, começamos a refletir sobre o que era a felicidade. Citamos exemplos de amigos em comum e de como eles encaram suas vidas e o que era a felicidade para eles. Foi uma conversa sincera e muito reflexiva. Mas não chegamos num consenso. Para alguns a felicidade está nos bens, no corpo, na fé, dinheiro, sexo, poder, ostentação e a lista é interminável. Trata-se de uma questão extremamente subjetiva e sem receitas prévias, muito embora, os livros de auto-ajuda proclamem terem a fórmula para encontrarmos a felicidade plena e duradoura.

Eu por exemplo creio que a felicidade está nas pequenas coisas, nos miúdos da vida, portanto, passageiras. E elas nem sempre são valorizadas por nós, pois justamente, estamos em uma sociedade que só foca o macro e não o micro. Aprendemos assim e o meio em que vivemos (sociedade) exerce forte influência sobre nós, já dizia Lev Vygotsky. Já para os gregos, por exemplo: a felicidade estava na virtude. Em ter uma vida que tenha virtude. Já em nossa sociedade atual quem está preocupado com a virtude? Creio que poucos, a maioria está mais preocupada consigo mesma e nada mais. E assim vamos caminhando, tateando a procura da tal felicidade.

Arrisco a dizer ainda que a tal felicidade seja fugaz e passageira. Impossível dizer que somos felizes 24 horas por dia. O que podemos ter é momentos de felicidade aqui e acolá; pequenos lampejos. Prefiro a alegria, que é uma atitude diante da vida, uma forma de afrontá-la. E quando temos isso dentro de nós, ou seja, um espírito de alegria o que nos acontece (seja bom ou ruim) não irá ditar a nossa agenda e o humor do dia.

Note que você deve conhecer uma pessoa alegre, e veja o quanto ela é diferente de uma pessoa que se diz feliz. Creio que os alegres são perenes e não passageiros como os felizes. É uma diferença bem sutil, mas que vale a pena cada um avaliar com calma.

Entre a felicidade e a alegria, cada um escolha o seu próprio caminho. Eu prefiro a alegria, como também o Guimarães Rosa:

“O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza...”


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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

ASSIM ENTENDO A PALAVRA: NÃO SE ESCONDA


A CRIAÇÃO, Afresco de Michelangelo no teto da Capela Sistina.


“E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi.” 
Gênesis 3: 9-10

É totalmente contraproducente: Deus nos criar e não querer ter um relacionamento conosco. Não faz sentido algum Ele não querer se relacionar. Pois fomos feitos a sua imagem e semelhança, contudo, em muitos casos nós e que nos extraviamos, e como verdadeiras ovelhas – vagamos por campos e passamos a largo desse relacionamento com Deus.

O relato do Gênesis é ímpar, principalmente quando ele diz no versículo 8 do capítulo 3: “Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia [...]”. Ou seja, Deus estava com eles, se fez presente, andava com Adão e Eva. Porém, como somos carnais e pecadores optamos por andar em outro rumo, que não é o do relacionamento com Deus.

Nesse mesmo relato do Gênesis, a Serpente nos aplica um duro golpe, aliás, o maligno sabe muito bem onde nos atingir, ele é mestre em encher nos olhos com aquilo que não podemos ser – mas que lá no nosso íntimo desejamos. Astuto, sempre nos propõe algo que aparentemente parece simples e inocente, mas que por detrás – está carregado de dolo, pois nada vem de graça da Serpente e pagamos com isso um alto preço, que é o nosso pecado.

Notem que nesse relato, a Serpente não disse: “Ei, Adão e Eva, venham me seguir. Tornarei vocês verdadeiros Deuses!”. Pelo contrário, pois a Serpente sabia que entre ela e Deus, Adão e Eva e nós mesmos – sempre optaremos por Deus. Porém, entre Deus e o nosso ego inflamado, optaremos pelo nosso ego. E foi o que Adão e Eva fizeram, caíram nessa esparrela, e cá estamos nós vivendo as conseqüências. Ah, e não pense que se você ou eu estivéssemos lá, teríamos feito algo diferente do que fizeram Adão e Eva. Pois em 1 João capítulo 1:10 diz: “Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós”.

A boa nova é o que Deus diz no final da bíblia, no livro do Apocalipse capítulo 21 e versículo 3, que fala: “Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles.”

Sim – eu creio pela fé que essa relação será restaurada em definitivo e estaremos novamente ao lado de Deus e andaremos com ele, e nunca mais ninguém irá se esconder da sua face. Até que esse dia chegue, sigo ao lado de Jesus, pois ele mesmo disse: “E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século”. (Mateus 28:20).


Amém!

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

CRÔNICAS AVULSAS: EU NÃO QUERIA MAIS FALAR SOBRE ISSO



Eu tenho uma conta no Twitter, e na minha time line já há algum tempo – explode diariamente tudo que os grandes veículos de comunicação e alguns entendidos de esquerda, direita e o tal do centro falam sobre a Operação Lava Jato e a nossa famigerada política. Acabo lendo ambos. Nasci plural. Aliás, minha mãe já desde criança sempre me ensinou: “Pior que não ler jornal, é ler um só!”. Sábias palavras que perseverei em guardar nas tábuas do meu coração.

Hoje para endossar ainda mais meu sentimento de estarrecimento e aborrecimento, novamente fui achocalhado com a seguinte notícia: “Moro aceita denúncia e Lula vira réu pela quinta vez”. Sim, não é piada, pela quinta vez um sujeito vira réu e até o presente momento não foi levado para a prisão em Curitiba. Creio que muitos por bem menos que isso, já foram parar lá. O próprio Eduardo Cunha é um exemplo.

Luiz Inácio Lula da Silva, passa agora a ser réu em cinco ações penais – três no âmbito da Operação Lava Jato, uma na Operação Zelotes e uma na Operação Janus. E nesta nova ação, Lula responderá por crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro relacionadas à empreiteira Odebrecht.  

Eu juro que não queria mais falar sobre isso, mas são tantas implicações, notícias e informações daqui e a acolá, que se torna impossível para qualquer cronista sair incólume a toda essa desgraça política que tomou conta do Brasil nos últimos anos e principalmente no ano macabro de 2016.

Por mais que todos estejam saturados, cansados e se perguntando: “Mas quando o Lula finalmente será preso?” Teremos de lidar com tudo que nos é informado em abundância nos noticiários, internet e nos jornais.

Dia desses um amigo me perguntou, por que deveríamos empreender tal grande tarefa, que para ele inclusive é faraônica de acompanhar tudo que está acontecendo no cenário político brasileiro, já que no frigir dos ovos – na opinião dele nada mudaria.

Confesso que fiquei sem reação, e refleti que igual esse meu amigo, quantos brasileiros não tem esse mesmo sentimento? Creio que muitos.

Que vivemos em tempos sombrios é fato líquido e certo. Que devemos fechar nossos olhos já cansados diante de tanta roubalheira em Brasília, porque é assim desde da época da Coroa de Portugal, quando aqui chegou, seria o ápice da apatia de nossa parte.

Existe uma grande diferença entre o querer e o dever. Claro, eu não queria mais escrever sobre isso, mas o dever é mais forte e enquanto houver pessoas aqui no Brasil com esse pensamento relapso e apático como do meu amigo, teremos que falar, escrever e protestar contra tudo isso que assola nosso País. 

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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

CRÔNICAS AVULSAS: O HONESTO JOÃO


OPERÁRIOS (1933) DE TARSILA DO AMARAL

Não sei você, mas eu moro em São Paulo. E quem mora nessa capital sabe como é um inferno – quando precisamos de algum profissional para realizar algum tipo de reparo em nossa casa. E isso vai das reformas mais simples as mais complexas, ou seja, é um tipo de serviço prestado extremamente precário e volta e meia lidamos com os mais diversos astutos e picaretas “profissionais” do mercado de prestação de serviços – nas mais diversas áreas: pedreiros, eletricistas, pintores... A falta de honestidade (às vezes chego até a acreditar) que no Brasil é crônica.

Contudo, hoje no horário acordado, o João chegou. Encostou seu carro na frente da minha garagem, tocou a campainha e fez seu serviço, enquanto eu ia conversando com ele. João é um serralheiro, e veio arrumar o portão da casa da minha irmã, que havia cedido um pouco, devido uma enorme construção ao lado da nossa casa, o portão estava raspando no chão e tínhamos enorme dificuldade em conseguir abrir e fechar ele.

A habilidade do João era notória, pois rapidamente executou a tarefa com extrema rapidez e precisão. Ele me disse que trabalhava nessa área há mais de 30 anos. Conversamos sobre os mais diversos assuntos, pois João além de ótimo serralheiro era também bom de papo e estava por dentro de tudo que acontece no Brasil.

De tal forma, que a política que a cada dia nos joga ainda mais no fundo do poço (haja vista esse crime que é a reforma da previdência social no Brasil) tomou a maior parte do nosso tempo. João nasceu no município de Alagoinhas na Bahia, e visitava sua terra ao menos uma vez por ano, porém, esse ano devido à crise ele não foi, disse isso com certo pesar nos olhos.

Paguei pelo justo serviço, e quando João deu ré no seu carro e o manobrou, nos despedimos. Enquanto atravessa a garagem para subir as escadas de casa, fiquei pensando sobre o Brasil e no nosso futuro político. Pois mesmo que não aceitemos, a política interfere em tudo nas nossas vidas.

Pensei em mulheres e homens como o João, e esses sim é que deveriam tomar conta do nosso Brasil, não esses crápulas que estão no poder lá em Brasília há anos. Tramando conchavos que só beneficiam eles próprios e roubando todos os brasileiros deslavadamente.

Se o Brasil tem jeito? Sinceramente acho que não! Pois é praticamente impossível que mulheres e homens honrados como o João – um dia cheguem a nos representar na política. Enquanto isso – todos nós vamos indo ladeira abaixo...


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

CRÔNICAS AVULSAS: NEM PÃO E MUITO MENOS BRIOCHES


OS COMEDORES DE BATATA (1885) – VAN GOGH


Dia desses fui ao supermercado ao lado de casa. Era um domingo como outro qualquer, e estávamos no dia 05 do mês, portanto, antes mesmo de começar a fazer a lista dos itens que iria comprar – já fui me preparando mentalmente e psicologicamente para a aglomeração de pessoas, carrinhos esbarrando nos calcanhares, filas intermináveis nos frios e nos caixas.
Contudo, tudo não passou de um devaneio meu, pois quando lá cheguei o supermercado estava vazio. Por um instante me senti como em um daqueles livros da série: “Deixados para trás” dos autores: Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins.

Calmamente fui colocando no carrinho de compras os itens da minha lista. Passei pelas bebidas e quando cheguei nos frios, tive vontade de adicionar mais um item a lista que não estava previamente listado. Foi quando tive a grande surpresa: o quilo da salsicha estava R$ 14,00! Parei, tirei os óculos, limpei as lentes e lá estava realmente em letras garrafais no cartaz: R$ 14,00!

Dei meia volta e segui adiante com os demais itens faltantes da lista. Fiquei pensando na época atual que estamos vivendo no Brasil: falta emprego, PIB no fundo do poço, empresas fechando, recessão aguda, economia estagnada, inadimplência nas alturas, juros na estratosfera e a velha e saudosa política nos jogando cada vez mais para o fundo do buraco. Lembrei-me de Adam Smith:

“A riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes.”

Creio que se Adam Smith estivesse aqui no Brasil, com toda a certeza, iria substituir a palavra príncipes por políticos. Basta ver os milhões que foram bloqueados de alguns deles na Operação Lava Jato. Isso é de envergonhar qualquer um e chegamos ao triste ponto de perder a esperança por dias melhores; pois como acreditar em um país melhor para todos nós, com esses políticos que lá estão em Brasília? Como pensar em algo diferente do que esta aí – com esses que deveriam legislar a favor do povo, ao invés do seu interesse próprio? Basta ver o que fizeram na calada da noite, enquanto o país todo pranteava pelo desastre com o time da Chapecoense.

Por mais esperançoso e otimista que sejamos se pensarmos criteriosamente no nosso Brasil, o que veremos é um imenso barco a deriva e sem rumo. Perdido completamente no oceano da malandragem de alguns em detrimento de muitos. Isso é a nossa realidade. E sinceramente me cansa ver esse espetáculo podre dos políticos em Brasília, que dia após dia sempre se beneficiam sordidamente e mutuamente.

Cansei. Não creio que veremos dias melhores em Pindorama! E pensar que ainda pode ficar pior... 

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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

CRÔNICAS AVULSAS: STONES É STONES



Stones é Stones! Essa foi exatamente a sensação que me ocorreu após ver tardiamente o “Rolling Stones – Shine a Light” um filme documentário durante o show da turnê “A Bigger Bang Tour” feito por ninguém menos que Martin Scorsese, que só para variar na época do lançamento, fez história no Festival de Berlim (2008) transformando-se no único documentário a abrir o evento em 58 anos.

Verdade seja dita – não trata-se de um documentário sobre os Rolling Stones, mas sim com os Rolling Stones. A diferença é sutil, porém significativa. A intenção do filme não é documentar a carreira desta que é uma das mais importantes bandas de rock de todos os tempos, mas sim registrar um único show, justamente o acontecido no Beacon Theater, em Nova York, no outono de 2006. E, de quebra, mostrar alguns antigos, esparsos e divertidos momentos do grupo.

A vitalidade de Mick Jagger durante todo o show é um capítulo à parte. Sua presença de palco e seus trejeitos nos deixam vidrados – canção após canção. Impressionante o seu vigor físico, apesar dos anos, drogas e álcool. Seus 63 anos (na época da filmagem) nem parecem dar sinal de presença no show – devido toda sua energia.

O que dizer então sobre a sonoridade da banda? Após anos e anos de carreira, atingiram um patamar que poucas bandas chegam. E o exercício da prática constante os torna quem são: uma referência mundial no rock and roll, com suas letras e músicas ousadas.

Quando acabam as 16 músicas executadas na íntegra pelo Rolling Stones, eles nos oferecem uma verdadeira lição, que muito embora um dia a banda acabe (pois embora não pareça – mas todos ali são finitos) suas músicas ficarão eternas em nossas mentes e corações.

Stones é Stones – sempre!

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sexta-feira, 17 de junho de 2016

CRÔNICAS AVULSAS: DONIZETE – UM CORPO QUE CAI



Não leitor, essa crônica não se trata sobre o filme do grande mestre do suspense Alfred Hitchcock, que leva o nome de: “Um corpo que cai”. Aliás, diga-se de passagem, é uma bela película, e eu recomendo. Trata-se do Donizete! Não sei o seu nome completo, mas sei que no dia dos namorados, em pleno 12 de junho desse ano corrente, ele nos visitou. Melhor, caiu em nosso quintal, numa queda livre de uns 7 metros de altura. Estava andando nos telhados dos vizinhos, causando verdadeiro alvoroço e mobilizando a vizinhança toda. E por fim, veio parar no meu e caiu.

Era um dia de domingo, com um frio cortante, desses que rasgam nossa cara aqui em São Paulo, que creio eu – foi o período de frio mais intenso que tivemos por aqui – há anos.

Tudo começou com uma forte gritaria no meu vizinho, gritos de homens e mulheres, não conseguíamos entender muito bem, julguei que era um assalto, e enquanto corria para ligar para a polícia, ouvi alguém andando sobre o telhado da minha casa, e logo em seguida – um barulho amedrontador (desses que nos causam forte impacto) de ossos se chocando no chão.

Minha irmã se desesperou, também pudera, moramos em um bairro perigoso aqui na zona sul de São Paulo, e enquanto eu procurava feito um louco às chaves da porta que dá acesso ao corredor, onde ela mora, os vizinhos foram chegando, e quando finalmente achei as chaves e corri para abrir a bendita porta e ver o que acontecia, já tinha uma aglomeração no meu portão. Abri a porta e corri, e lá estava o Donizete, jorrando sangue por todos os lados, sem camisa, todo cortado e com uma bela fratura exposta no tornozelo. E completamente bêbado.

Aos poucos fomos todos nos acalmando, e o Donizete começou a nos dizer sua história. Disse que era pai de 4 filhos, trabalhador, e que tinha brigado com sua esposa e que resolveu beber. O resultado todos nós já sabemos.

Alguém já tinha ligado para a polícia, que chegou prontamente. E depois ligamos para o SAMU, que demorou algumas horas para chegar. E enquanto isso o Donizete ficou ali, estatelado no chão. Olhar perdido e desiludido. Não tinha a menor condição de andar e o cobrimos devido o frio. Passado algum tempo, ele foi devidamente removido e não tenho mais notícias suas. No fundo, o homem renasceu, pois a julgar pela altura, ele poderia muito bem ter morrido.

Engraçado que comercial nenhum de bebida alcoólica mostra essa faceta! Tudo que vemos na televisão, é muito belo, pessoas em corpos sarados (homens e mulheres) rindo, como se estivessem no Jardim do Éden... Será?

Não é preciso ser um grande expert para saber que as drogas lícitas – matam bem mais que as ilícitas. E o álcool tem um poder devastador na vida de qualquer um, e muitos não encontram o caminho de volta.

Contudo, a grande mídia sempre vai maquiar esses fatos. Compete a nós o bom senso! E o “beba com moderação” – pode ser traiçoeiro e letal para qualquer um...


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quinta-feira, 19 de maio de 2016

CRÔNICAS AVULSAS: JORGE LUIS BORGES E SEUS ENCANTOS



No dia 07.05.2016 tive a honra de estar no Museu de Socorro-SP e falar sobre o Borges, a palestra levou o seguinte mote: Jorge Luis Borges – O escritor e os paradoxos do seu: O livro de areia.

Enquanto ela não começava – falava com minha companheira: Alexandra Collazo, sobre os tempos de outrora (bem saudosos por sinal) em que todo sábado à noite, eu e minha mãe sentávamos na sala e ficávamos por horas a fio falando sobre nossas leituras e as impressões que tivemos dos autores. Por certo, falamos não uma, mas várias vezes sobre o Borges, minha mãe o conhecia profundamente – principalmente seus poemas, que não eram o meu forte. Aliás, sempre foquei em Borges mais seus contos, que naturalmente me apeteciam mais.

Pensar em mãe era natural, afinal no dia seguinte – domingo era o dia das mães. Confesso, que enquanto falava para as pessoas ela não me saia da mente. Fiz o melhor que pude e com o coração por dentro despedaçado – esmagado pela data e pelas lembranças. Creio que isso passou despercebido de todos. Talvez eu seja um bom ator, vai saber...
Ao final uma senhora veio – me abraçou e sussurrou em meus ouvidos:

“Muito obrigada pelas lindas palavras! Faltam mais jovens como você!”

Fui embora com aquela sensação de dever cumprido e creio que os demais que estavam presentes, também foram embora satisfeitos com a tertúlia promovida.

Ao final da noite, já deitado a velha e companheira fiel insônia me visitou, e me fez relembrar de um dia em que minha mãe me relatava sobre a vinda do Borges aqui para o Brasil, e a Lygia F. Telles, o encontrou em 1970 na cidade de São Paulo. Lygia relata mais ou menos esse encontro assim:

“Eu conhecia o Borges de antes, mas o encontro foi num jantar. Já cego e velhusco, estava tão cercado que eu não seria capaz de chegar perto. Quando ia embora, vi-o sentado numa cadeira, sozinho com sua bengala. Todos ao redor tinham desaparecido milagrosamente. Chamei: “Borges”. Sempre tive esta voz rouca, mesmo quando jovem. Ele reconheceu: “Lygia”. Estava com a mão apoiada na bengala e eu botei a minha em cima. “Queria me despedir e que me dissesse uma coisa. Detesto a palavra ‘mensagem’, que perdeu o sentido mais profundo e só se usa comercialmente, mas peço que me diga algo, uma mensagem”. Ele disse: “Tenho um amigo que morreu quando deixou de sonhar”, e mencionou o nome no exato instante que alguém quebrou um copo ali perto, de modo que não ouvi. Fiquei com vergonha de perguntar quem era novamente, me despedi e saí. Uma jovem no palácio dava uma rosa para cada convidado. Peguei a rosa, botei na lapela e pensei: a rosa profunda. Anos mais tarde é que descobri que era Horacio Quiroga. Na hora que deixou de sonhar, matou-se. Na hora que eu perder essa força do sonho, vai vir à tona: o que estou fazendo aqui? Os paraísos perdidos, os sonhos perdidos. Aí é melhor ir embora, rapidamente. Tem aquele livro ‘A negação da morte’. O que é a negação da morte? A arte. Pintar, escrever, fazer música. A única coisa que nega a morte e consegue flutuar no mar do mundo, como um barco, é a arte.”

Com Borges aprendi – que o que existe são os paraísos perdidos. É a eles que temos de nos agarrar; mostrar que estão perdidos sim, mas que foram e são paraísos. Arte é o meu paraíso! Como era o da minha mãe! E em breve estaremos juntos nesse paraíso. 

Até breve mãe...

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